terça-feira, 23 de março de 2010

Praça General Valadão é testemunha do crescimento da cidade

Por Talita Moraes (estagiária)

A importância das praças não se limita ao fato de elas constituírem espaços dedicados ao lazer da população. Na antiguidade greco-romana, as praças ocupavam o espaço central da polis (cidade) e abrigavam feiras e mercados livres, bem como edifícios públicos. Era na ágora (praça principal) onde acontecia o exercício da cidadania, materializado, por exemplo, em discussões políticas e tribunais populares, sem falar na convivência cotidiana com o outro. O mesmo acontecia nas cidades brasileiras no período colonial. Nelas havia sempre praças centrais com importantes prédios administrativos e outras construções - casa da redenção, câmara, cadeia. Em volta delas, as cidades se desenvolviam economicamente, culturalmente e socialmente.

Praça Generão Valadão, com o Hotel Palace ao fundo (Fotos: André Moreira)

Foi dessa mesma maneira que Aracaju, a segunda capital de Sergipe, cresceu e foi se transformando. Assim como muitas cidades romanas, Aracaju foi pensada como um tabuleiro de xadrez, com edifícios públicos localizados no centro, em posições estratégicas. As praças foram criadas concomitantes ao seu desenvolvimento planejado. Como o principal motivo para a mudança da capital de São Cristóvão para Aracaju foi a presença de um porto, essencial para o escoamento da produção local e para o desenvolvimento econômico do Estado, as primeiras praças foram construídas em sua proximidade, no centro de Aracaju e às margens do rio Sergipe. Uma delas foi a Praça General Valadão.

Palácio Serigy, antiga Cadeia de Aracaju, é um dos prédios de grande
importância histórica que margeiam a praça

Integrando o projeto de fundação e organização espacial da cidade, de autoria do engenheiro militar Sebastião José Basílio Pirro, a Praça General Valadão estava dentro do chamado ‘quadrante de Pirro', que tinha como centro a Praça Fausto Cardoso e a partir do qual foi traçado o tabuleiro de xadrez que deu forma à nova capital. O desenho se estendeu para os sentidos norte, oeste e sul, uma vez que no leste ficava o rio Sergipe.


Nomes

Segundo o historiador Luiz Antônio Barreto, dois dos prédios mais antigos - a Alfândega e a Cadeia - localizavam-se no entorno da General Valadão. Por muitos anos, a praça foi conhecida como a Praça da Cadeia, devido à proximidade do prédio que abrigava os presos. "Era muito comum, antes de dar nome oficial às praças, chamá-las com o nome de um prédio das proximidades", afirma Luiz Antônio. O prédio da cadeia foi demolido na década de 1930 para a construção do Palácio Serigy, onde hoje funciona a Secretaria de Estado da Saúde.

Ainda de acordo com o historiador, posteriormente a praça passou a se chamar 24 de Outubro, data da emancipação política de Sergipe. Por fim, na década de 1930, recebeu o nome do General Oliveira Valadão, ganhando também um busto do homenageado. Nascido em Neópolis, Oliveira Valadão teve participação na proclamação da República, foi duas vezes governador do Estado e líder republicano.

Economia e prostituição

Luiz Antônio Barreto conta que, além de ficar perto de prédios importantes, a praça General Valadão ficava numa região de grande importância comercial, bem em frente ao rio Sergipe, onde se encontrava, então, a zona portuária. Também por ali estavam o Mercado Municipal, ainda com sua estrutura original, e a Praça do Trem, além de caminhões vindos do interior para abastecimento.

Historiador Luiz Antônio Barreto conta que a praça
já teve vários nomes (Foto: Infonet)

À medida que a nova capital se desenvolvia, o turismo começava a despontar como importante atividade econômica. Em 1962 o Hotel Palace de Aracaju foi construído, sendo a primeira grande estrutura para receber turistas na capital. Nessa época, os visitantes ainda se concentravam no centro da cidade devido à presença do terminal rodoviário, além dos limites urbanísticos e da atividade comercial da região.

O turista que na época vinha à Aracaju era o funcionário público que queria conhecer o Brasil, os baianos - devido à proximidade geográfica -, as excursões em navios vindos do Rio de Janeiro e que tinham como ponto de parada a capital sergipana, as companhias de teatro, música e dança.

A concentração de atividades econômicas na área central da cidade fez com que a prostituição se tornasse marcante. Havia na região casas de luxo bem estruturadas, onde pela manhã funcionavam estabelecimentos comerciais e à noite prostíbulos. Por conta disso, a área foi chamada, jocosamente, de Vaticano.


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