sexta-feira, 29 de junho de 2012

Nordeste festeja 100 anos de Gonzagão

Por Illton Duarte
E-Aju/Secom PMA


O ritmo da sanfona, o compasso da zabumba e do triângulo dão o sinal. Já é São João no Nordeste, que dessa vez tem um motivo a mais para comemorar. É centenário do Rei do Baião, que se estivesse vivo completaria 100 anos, em dezembro deste ano. Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em Exu, PE a 700 km de Recife. O segundo dos nove filhos do casal Januário José dos Santos, o Mestre Januário, sanfoneiro de 8 baixos famoso na região, e Ana Batista de Jesus, conhecida por Santana. Aprendeu desde muito cedo a ter gosto pela música vendo e ouvindo as apresentações do pai, a quem ajudava tocando zabumba e cantando em feira e festas religiosas.

Foi através de um concurso de calouros no rádio que Gonzaga ganhou o primeiro prêmio de muitos na sua carreira musical. O prêmio foi com o sucesso ´Vira e Mexe´, música de sua autoria. A partir daí sua carreia começou a deslanchar para o sucesso, onde passou a participar de vários programas de rádio e gravar discos sempre com repertório de músicas nordestinas e a compor varias canções. Na época foi contratado pela rádio clube do Brasil, onde fez várias participações e, logo após, foi contratado pela rádio Tamoio. Anos depois foi contratado pela rádio Nacional, onde seguiu compondo mais sucessos.

Acompanhado de sua sanfona branca, o velho Lua, como também era conhecido, foi o primeiro músico nordestino a assumir sua nordestinidade, vestindo gibão e chapéu de couro - trajes típicos da figura do vaqueiro. Levou a alegria das festas juninas e dos forrós pé-de-serra, bem como a pobreza, as tristezas e as injustiças do Sertão nordestino para o resto do país. Em uma época em que a maioria das pessoas desconhecia o xote, o xaxado e o baião, cantou as dores e os amores de um povo sofrido, que ainda não tinha voz, diante da terra árida e seca.


“Quando oiei a terra ardendo,
Qual fogueira de São João,
Eu perguntei a Deus do céu, uai,
Por que tamanha judiação...


Que braseiro, que fornáia,
Nem um pé de prantação,
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão...”


Luiz Gonzaga cantou ´A vida do viajante e suas recordações´:

“Minha vida é andar
Por esse país
Pra ver se um dia
Descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei...”


Cantou também o ´Xote das Meninas´:

“Mandacaru quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega no sertão
Toda menina que enjoa da boneca
é sinal que o amor já chegou no coração
Meia comprida, num qué mais sapato baixo
Vestido bem cintado, não quer mais vestir timão...”


Luiz Gonzaga é considerado uma das figuras mais importantes da música popular brasileira. Admirado por grandes músicos, como Chiquinho do Acordeão, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Caetano Veloso, entre outros. Suas músicas servem de inspiração até hoje para a maioria das quadrilhas juninas espalhadas por todo país e estão presentes em praticamente todos os repertórios juninos.

Em depoimento extraído do livro ´Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga´, o cantor e compositor Gilberto Gil afirma ser discípulo fiel do Gonzagão. “Seu nome se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira. Eu, como discípulo e devoto apaixonado do grande mestre do Araripe, associo-me às eternas homenagens que a História continuada prestará ao nosso Rei do Baião”, revela.
Ana Batista de Jesus e Januário José dos Santos
Já para Chiquinho do Acordeão, o velho Lua representa toda a música nordestina, e através dele vieram vários sanfoneiros. “Luiz Gonzaga deixou uma descendência artística, como Dominguinhos, Oswaldinho e toda uma geração de sanfoneiros que está atuando por aí. Abriu, também, caminhos para Jackson de Pandeiro e para os artistas nordestinos quem vêm para o Sul. Como criador e estilista, não há ninguém que se compare, até agora, àquele que é chamado até hoje de Rei do Baião”, comenta.

Atualmente é apontado pela crítica como um dos nomes mais importantes do cenário musical de todos os tempos. Ao lado de grandes parceiros de composição, como Zé Dantas e o Humberto Teixeira, Rei do Baião eternizou canções como Asa Branca, Vozes da Seca, Assum Preto, Qui Nem Jiló e A Triste Partida. Outras parcerias que tiveram êxito foram Tá Bom Demais (com Onildo de Almeida), Danado de Bom (com João Silva), Dezessete e Setecentos e Cortando o Pano (ambas com Miguel Lima), parcerias que levou ao mundo a riqueza dos ritmos nordestinos.


O consagrado Rei do Baião tocou em Paris em 85 e ganhou o prêmio Shell de Música Popular em 87. Seu som atravessou varias gerações e foi reconhecido e apreciado não só pelo povo, mas também pela mídia. Foi tocando sanfona, instrumento tão pouco ilustre e com muita simplicidade e dignidade, que o Velho Lua conseguiu chegar ao auge de sua fama. A música brasileira e a cultura nordestina só têm a agradecer.



Em entrevista à imprensa, antes de finalizar seu último show no Recife, o Rei do Baião proferiu estas palavras: “Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o sertão; que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor. Este sanfoneiro viveu feliz por ver o seu nome reconhecido por outros poetas. Quero ser lembrado como o sanfoneiro que cantou muito o seu povo, que foi honesto, que criou filhos, que amou a vida, deixando um exemplo de trabalho, de paz e amor. Gostaria que lembrassem que sou filho de Januário e dona Santana. Gostaria que lembrassem muito de mim; que esse sanfoneiro amou muito seu povo, o Sertão. Decantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes. Decantou os valentes, os covardes e também o amor”.

Luiz Gonzaga morreu em Recife(PE) no dia 2 de agosto de 1989, deixando um vasto legado musical.

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